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Outubro é o mês com o maior número de homenagens a padroeiros católicos populares na cidade. Alguns são lembrados pelo seu bom exemplo em vida. Outros, requisitados pela fama de milagreiros. Missas campais, festas de rua e romarias em busca de graças movimentam a agenda dos devotos.
A unanimidade de Aparecida pode ser notada pelas vendas da Imagens Bahia, na Liberdade, que fabricou 23 milhões de estátuas católicas em 2008 (3 milhões só de Aparecida) e fatura 2 milhões de reais por ano. O ranking é seguido por Santa Edwiges (padroeira dos endividados), São Jorge (reverenciado por corintianos e seguidores das religiões afro-brasileiras), Santo Expedito (o das causas urgentes) e Santo Antônio (o casamenteiro). Nossa Senhora também lidera a lista de 4 000 modelos produzidos pela Artesanato Costa, fornecedora de parte das requintadas imagens da loja Catedral, no Shopping Iguatemi, que chega a vender uma medalha de ouro de 2 centímetros, cravejada de brilhantes, por 7 000 reais.
Entre as representações com procura mais crescente está a de Frei Galvão, o preferido dos enfermos. No ano passado, o papa Bento XVI esteve no Campo de Marte para canonizar o brasileiro, mantendo como data oficial de reverência o dia de sua beatificação, e não o de sua morte, 23 de dezembro de 1822. Assim, no próximo dia 25 os fiéis devem lotar o Mosteiro da Luz para visitar seu túmulo e memorial, além de pegar os pacotinhos com suas famosas pílulas. "Temos recebido especialmente mulheres querendo engravidar, já que um de seus milagres foi acabar com a esterilidade de uma mãe", conta o capelão Armênio Rodrigues Nogueira. Em uma das sete missas programadas, Frei Galvão receberá de integrantes do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) o título de primeiro arquiteto do Brasil.
Mas são outros dois aniversariantes da segunda quinzena de outubro que concentram as esperanças dos paulistanos mais desesperados: Santa Edwiges (dia 16) e São Judas Tadeu (dia 28), este considerado imbatível nas causas urgentes. Ambos têm santuários próprios, igrejas que levam esse título em virtude da grande procura de peregrinos. O aniversário de 765 anos da morte da santa alemã vai exigir a participação de quinze padres nas sete missas da igreja do Sacomã. "Esperamos receber 20 000 pessoas, entre moradores de Heliópolis, vizinha ao santuário, e caravanas de outras cidades", diz o pároco Devanil Ferreira. "Na bênção do fim das missas, as pessoas levantam carteiras profissionais, documentos e chaves do carro."
Saiba mais na matéria da Revista Veja São Paulo de 12/10/2008.
http://vejasaopaulo.abril.com.br/revista/vejasp/edicoes/2082/m0168920.html
Deus e o Diabo no Haiti.
De Luiz Fernando Veríssimo
O evangélico Pat Robertson, um dos líderes da direita religiosa americana, tem uma explicação para as desgraças do Haiti que culminaram com esse terremoto demolidor.
Um dos países mais miseráveis do mundo, com uma história ininterrupta de privações, violência e instabilidade política, o Haiti estaria pagando por um pacto que fez com o Diabo em 1804, quando pediu sua ajuda para expulsar os colonizadores franceses e tornar-se uma república.
Desde então, os haitianos viveriam sob uma maldição. O terremoto, segundo Pat Robertson, é apenas o castigo mais recente. Mas o religioso pediu a seus fiéis que rezassem pelos haitianos. E, presumivelmente, pedissem a Deus que esquecesse velhos ressentimentos e lhes desse uma folga.
Se o Diabo ajudou mesmo os haitianos contra os franceses foi por uma causa nobre. O Haiti foi o primeiro país do mundo a abolir a escravidão, dando um exemplo que custou a ser seguido pelos outros.
A república, também inédita, fundada depois da expulsão dos franceses era de ex-escravos, e acolhia escravos fugidos ou alforriados de outros países. E se Deus os castigou por esta audácia, não foi o único.
A França exigiu e recebeu reparação pela colônia perdida, o que aleijou a economia da nova república por muito tempo. A vizinhança com os Estados Unidos também não ajudou. Os americanos chegaram a ocupar o Haiti durante vinte anos, sem muito proveito para o país.
Grandes negócios foram feitos na época dos ditadores Papa Doc e Baby Doc Duvalier, também sem muito proveito para o país.
Nos últimos tempos, apoiando e desapoiando líderes mais ou menos populares, os americanos têm tentado manter no Haiti uma democracia representativa mas não representativa demais, a ponto de armar politicamente uma massa de desesperançados, com o risco de eles também convocarem o Diabo.
Agora não se sabe o que vai surgir dos escombros da tragédia.
Outro
O Deus vingativo de Pat Robertson certamente não era o Deus de Zilda Arns, que morreu no Haiti trabalhando pela causa da sua vida, a ajuda aos pobres e, principalmente, às crianças. O seu era um Deus solidário. Infelizmente, pouca gente no mundo está disposta a fazer um pacto como o que Zilda Arns fez com este outro Deus. Ela sobreviverá como um exemplo e uma inspiração.
Fonte: NOBLAT
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